Celular na mão, computador no trabalho, televisão em casa e redes sociais nos intervalos. Das crianças aos adultos, a tecnologia ocupa cada vez mais espaço na rotina. Ela facilita tarefas, aproxima pessoas, oferece entretenimento e abre inúmeras possibilidades de aprendizado. Mas e quando sobra espaço para as conexões humanas?

Também existe a necessidade de sair da frente da tela, movimentar o corpo, conversar pessoalmente, criar, aprender algo novo e compartilhar experiências.
Encontrar esse equilíbrio não significa transformar a tecnologia em vilã. Significa reconhecer que a vida também acontece fora do ambiente digital.
É nesse cenário que atividades culturais como dança, música, teatro, escrita e artes ganham espaço como alternativas de lazer, aprendizado e convivência para pessoas de diferentes idades.
Na Unidade Sesc de Cultura, em Boa Vista, a programação reúne desde atividades para crianças até cursos destinados a jovens, adultos e pessoas com mais de 50 anos. As opções mostram que nunca é cedo, nem tarde, para descobrir uma nova habilidade.
O equilíbrio está na rotina
A psicóloga do Centro de Educação Sesc, Luciana Coelho explica que o uso excessivo das telas pode interferir em aspectos como atenção, memória e, principalmente, nas oportunidades de interação com outras pessoas.

Para ela, é na convivência presencial que se aprende a lidar com situações e relações que não acontecem da mesma maneira no ambiente virtual.
“A questão não passa necessariamente por abandonar celulares, computadores ou outros dispositivos, mas por construir uma rotina que também abra espaço para outras experiências”, destaca a psicóloga.
Luciana chama a atenção para a importância da interação e observa que até os adultos estão constantemente em contato com o telefone. A lógica do equilíbrio passa pela organização da rotina, combinando o período conectado com estudos, atividade física, esporte e momentos de compartilhamento de interesses e convivência.

“Reservar algumas horas da semana para aprender um instrumento, dançar, escrever ou participar de uma atividade artística pode representar uma maneira de treinar o cérebro para novas oportunidades”, afirmou Luciana.
Aprender algo novo também é cuidar de si
A trabalhadora humanitária Vanessa Araújo, de 29 anos, encontrou na música uma maneira de mudar o ritmo da própria rotina. Ela começou as aulas de violino em abril deste ano e conta que a decisão veio do desejo de experimentar algo novo e, ao mesmo tempo, encontrar um momento de tranquilidade depois das atividades profissionais.
“Eu iniciei as aulas de violino para poder me sentir mais calma, mais leve comigo mesma, liberar as tensões do dia a dia no trabalho e aprender um instrumento novo, crescer culturalmente”, relata.

A vontade de Vanessa em aprender algo novo encontrou o talento e a experiência do professor de violino do Sesc, César Augusto Araújo. Ele observa dentro da sala de aula. Entre seus alunos estão pessoas que deixam o trabalho e seguem diretamente para a atividade.
Para o professor, esse momento funciona como uma oportunidade de mudar o foco da rotina e se dedicar à música.
“Tenho alunos que saem do trabalho, vêm direto para cá. Então é uma forma de se desconectar da realidade e mesmo aprender e crescer juntos em prol da música”, afirma.
César destaca ainda que aprender música pode representar outra maneira de se divertir e adquirir conhecimento sem permanecer exclusivamente diante das telas.
Quando o movimento vira encontro
Elenice Rodrigues, de 43 anos, é estudante de medicina e educadora física. Ela participa das aulas de Fitdance e, para ela, movimentar o corpo proporciona benefícios que ultrapassam a atividade física.

“A dança movimenta o corpo, faz bem para a alma, faz bem para a autoestima”, conta. Ela destaca que encontrar uma atividade com a qual a pessoa se identifica também ajuda a transformar a rotina.
Há ainda outro componente importante: as relações construídas durante as aulas. Segundo Elenice, o Fitdance proporciona alegria e favorece novas amizades.
“A gente faz amizade na aula de dança e isso contribui muito para nossa rotina do dia a dia ser mais leve e mais tranquila”, relata.
A instrutora Nathana Lindey também aponta a convivência como um dos atrativos da modalidade.
“Além de se movimentar, quem participa encontra diversão, alegria e a possibilidade de conhecer pessoas novas”.
Cultura em todas as fases da vida
Se para os adultos as atividades podem representar uma pausa na rotina e uma oportunidade de aprendizado, para crianças e adolescentes elas também assumem importante papel no desenvolvimento.
Nas aulas de balé ministradas pela professora Rosângela Bonfim, o trabalho acompanha as diferentes etapas da infância. Com as crianças de 3 a 5 anos, são desenvolvidas ludicidade, coordenação motora e lateralidade.
Entre 6 e 8 anos, elementos técnicos começam a ganhar mais espaço e, a partir dos 9, o aprendizado inclui flexibilidade, coordenação motora, balé clássico e moderno.
Mas a formação não termina na técnica. Rosângela destaca que a dança também proporciona convivência e construção de amizades entre as crianças. Para ela, a arte deve acompanhar outros aspectos da formação.
“A arte precisa ser um complemento da vida delas, porque aí vai construindo o ser humano, não só a bailarina, mas o ser humano”, afirma.
Os efeitos são percebidos pelas famílias. Hamilton Deveza, de 45 anos, gerente de loja de móveis, acompanha a filha Laura Santos Deveza, de 11 anos, nas aulas de balé e conta que percebe mudanças desde que iniciou a atividade.
“Ela aprendeu muito e passou a demonstrar mais alegria. Ela leva jeito, tem muito interesse e fica também ocupando a mente”.
A própria Laura diz gostar das aulas e da forma como a professora ensina. O contato com a dança já despertou planos.
“Eu quero continuar no balé para fazer apresentações e fazer solos”, diz a pequena Laura.
Josiane Rodrigues, de 33 anos, mãe de Sofia Hadassa, de 9, e Maria Clara, de 5. Depois que as filhas começaram o balé, ela percebeu que as meninas passaram a conversar mais, ficaram mais soltas e fizeram novas amizades.

“Elas gostam muito de vir no balé, gostam muito da professora, das colegas, das amizades… é bonito pra gente que é mãe ver as crianças fazendo arte”, afirmou a dona de casa.
Há sempre alguma coisa nova para aprender
Os cursos culturais oferecidos pelo Sesc Roraima são:
- Balé baby class e moderno;
- Teatro;
- Escrita literária;
- Fitdance;
- Dança de salão;
- Dança livre;
- Cursos de instrumentos (teclado, violão, violino, viola de arco e violoncelo).
As faixas etárias também são variadas. Há atividades para crianças a partir dos 3 anos e cursos para adolescentes e adultos. Algumas modalidades possuem ainda turmas específicas para pessoas com 50 anos ou mais, como dança livre, teclado e violão.







